O ÚLTIMO VOO – Manaus dia 13 de setembro de 2014 

voo AD9214 MAO/BVH  voo AD9215 BVH/MAO – manaus/vilhena/manaus

Era só mais um voo, mais uma manhã, mais uma mala arrumada para um ‘bate e volta’, mais uma ida ao aeroporto, mais todos os pensamentos que comissários de voo tem nessa hora (quantos pax’s, tempo de voo, para onde vamos?, e se der pane em solo, emergência em voo! qual aeronave vou tripular? se algum passageiro tiver um ‘troço’ a bordo o que eu tenho que fazer? e blá blá blá…  é a famosa e necessária ‘revisão mental’).

Então era outra vez vestir meu manto sagrado (uniforme), mais um coque no cabelo, mais uma make no rosto e novamente, o sorriso, que precisava ser igual ou pelo menos parecido, com o que eu tive quando fui contratada em 2003 e fiz meu primeiro voo. <3

E assim foi. Por fora, tudo parecia normal mas na verdade, dentro de mim, nada mais estava sendo tão bom quanto em 2003. Aliás, nos últimos dois anos, já não me reconhecia ali naquele ambiente, e foi nesse momento que comecei a adoecer.

Foi um voo triste, só para mim, lembro dos passageiros todos muito tranquilos, eram 51 pessoas. A maioria dormiu. A tripulação estava ‘de boa’, a minha colega de cabine era uma comissária que havia iniciado na carreira a menos de um ano, simpática, educada, cheia de planos.

Fizemos uma ida sem nenhuma anormalidade e um retorno idem, foi um translado (voo sem passageiros). Eu contava os segundos no relógio para chegar em Manaus e sair de tudo aquilo que de um sonho, passou a ser nesses últimos momentos, um pesadelo de onde eu não conseguia sair.

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Ei, espera um pouco… como assim, do que eu estou falando?! Esse não foi o trabalho tão sonhado por mim desde os meus nove anos de idade?! Não foi por causa dessa profissão que eu abdiquei de tantas outras coisas para estar em aeronaves?

Pois é, contraditório. Agora imagine tudo isso dentro de mim, fazendo parte dos meus dias, noites e madrugadas, muitas delas acompanhadas de insônia e choro. Como eu poderia estar sofrendo tanto enquanto fazia o que eu sempre sonhei e amava fazer?

A profissão tão difícil de ser conquistada quando fiz meu curso de formação, e ainda que tenha demorado três anos, eu havia conseguido?

A realidade estava sendo dura demais comigo. Eu não aceitava a derrota, era o meu amor pelo trabalho/profissão contra todos os sentimentos confusos e a minha saúde gritando por socorro.

E depois desse voo, não consegui fazer mais nenhum. Meu corpo reagia negativamente todas as vezes que eu começava a arrumar mala, o uniforme e me preparava para uma nova chave de voos; diarreia, vômito, pressão baixa, formigamentos, taquicardia… até que um dia eu paralisei, não sentia minhas pernas, não conseguia levantar da cama.

Depois de várias consultas, exames médicos e atestados, “EU PERDI MINHAS ASAS”.

Quando você deixa de sorrir através do seu coração, seu corpo rejeita a sua alma! E foi despedaçada, assim eu me sentia naqueles dias, que eu olhei para o infinito e pensei: é o fim!