Esse é o artigo mais delicado e longo da série “quando perdi minhas asas”.

Para compartilhar essa experiência aqui, pensei e repensei por meses. Vou me expor de uma maneira muito íntima, transparente e acima de tudo verdadeira.  Sei que assim como eu, muitos tripulantes já passaram por isso e outros tantos ainda passarão. E nesse momento, muitos colegas estão sofrendo em silêncio! Por vocês eu oro.

Desde a infância me sentia por alguns momentos ‘fora do ar’, distante da realidade, diferente dos outros e isso me deixava meio triste tendo acontecido várias vezes ao longo da minha vida. Ao mesmo tempo, passei por situações bem difíceis, coisas da vida. Por isso, comecei a associar aquela minha ‘estranheza’, à esses acontecimentos. Ainda na adolescência recebi o diagnóstico de DEPRESSÃO. Junto veio da minha parte, o que mais prejudica o tratamento: VERGONHA e PRECONCEITO.

Por ter uma personalidade bastante otimista, sempre consegui superar essas dificuldades, foi assim que coloquei a doença sob o ‘tapete da minha vida’. Até que infelizmente perdi minha mamãe quando estava com 25 anos de idade. Isso foi um acontecimento que nem com todo o otimismo do mundo eu consegui ‘resolver’ sozinha.

Resumidamente, perdi a capacidade de me estabilizar e estar no voo, fazendo do meu sonho uma realidade, me ajudou a seguir. Até que outros fatos também importantes aconteceram, entre eles, uma fusão entre duas cias aéreas, numa delas eu estava obviamente. Felizmente permaneci na cia. mas com o tempo fui me perdendo. Não me reconhecia mais, me culpei por não sentir mais amor pelo meu trabalho dentre outras situações que já relatei em outros artigos http://janainamichiles.com/meu-ultimo-voo/ e http://janainamichiles.com/emergencia-nao-preparada/

Inflamação de tireoide, ocasionada por estresse agudo, acompanhada de sintomas que até então eu não entendia (o tapete da minha vida havia sido removido bruscamente). Assim, MINHAS ASAS FORAM PARA A GAVETA e todo o meu ‘trabalho’ de anos empurrando a doença com a barriga não tinha mais efeito. A depressão, a maior de todas (daquelas que se pensa como fazer para morrer logo), estava me destruindo.

Tentando compreender o que estava acontecendo comigo, pesquisar tornou-se uma busca diária, além das várias perguntas que fazia aos muitos médicos que me atenderam. Até que encontrei artigos e estudos de médicos especialistas em aeronautas, relatando sobre absolutamente tudo o que eu vivia naquele momento. Isso me ajudou muito no tratamento.

Ao mesmo tempo que me senti acolhida, aliviada por não ‘estar louca’, fiquei chocada pois as informações são antigas. Minhas capacidades cognitivas ficaram limitadas nesse período, por isso optei por ler apenas um doutorado de 2009 e um artigo de 2007. Me senti tão enganada pela aviação e por mim mesma.

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Será que esses médicos fizeram esses estudos em vão? Aeronautas adoecem e estão morrendo por falta de cuidado, e matando, no caso bastante noticiado do piloto do Airbus A320 da Germanwings, lamentável!

E NÃO É RESPONSABILIDADE SOMENTE NOSSA, estamos muito ocupados cumprindo escalas e fazendo maquiagem, que deve estar perfeita se não: reporte certo. É, estamos lindos por fora, desfilando sorridentes pelos aeroportos e aviões, impecáveis e doentes por dentro. Nas buscas online sobre a profissão ainda se vende glamour e outras mentiras mais.

Muitos aeronautas estão ótimos e nem de longe entenderão minhas palavras, sinceramente desejo mesmo que você não entenda nunca. Mas continuo por mim e por centenas de colegas, com a vossa licença.

(arquivoPDF) MariaLuizaNery médica da aeronáutica, apresenta tese sobre fatores determinantes para o afastamento de comissários de voo. Nesse documento fica claro que são de conhecimento das autoridades os malefícios dessa profissão com o passar do tempo. Enquanto lia, me questionava: “Não seria relevante nos informar a respeito desses dados alarmantes, além de as cias aéreas inserirem nos ‘milhões’ de treinamentos que fazemos? Por que não atuam efetivamente na prevenção de tais problemas? Porque não nos dar a chance de percebermos que estamos correndo riscos, além dos que são característicos da profissão?”. Na verdade, ACREDITO que desde o curso de formação para comissários fui enganada. A história da aviação comprova.

Mas foi o artigo publicado pelo Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira no http://leonardopalmeira.com.br/website/?p=12 que me levou às lágrimas e ao começo da minha cura, a fazer um esforço para tentar me perdoar por estar doente. Ele sabia tudo o que estava acontecendo comigo apesar de não me conhecer. Suas palavras nesse artigo poderiam ser copiadas por muitos aeronautas que buscam compreender como adoeceram e não perceberam?

“A psiquiatria é a primeira causa de afastamento por doença entre aeronautas e isso não é por acaso. Características da profissão e a demora em procurar ajuda colocam aeronautas sob um risco elevado de adoecimento psíquico. Por outro lado, as empresas parecem não ter despertado para esse grave problema e não desenvolvem políticas de prevenção e conscientização. Os aeronautas expõem-se cada vez mais ao risco de adoecimento psíquico, principalmente diante das difíceis condições de trabalho e da sobrecarga no setor. Os hábitos de vida, a falta de rotina e horários e o distanciamento da família contribuem para o aumento dessa vulnerabilidade. Alertar os profissionais de voo para que possam procurar ajuda e se preservar, sem comprometer demais sua saúde e bem-estar sócio-familiar, é o mínimo que se pode fazer diante da difícil realidade que é trabalhar na aviação comercial nos tempos atuais.” Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira

Eu demorei muito. Hoje continuo em tratamento, felizmente encontrei médicos que ACREDITARAM em mim e tenho uma família que persistiu em ajudar na minha cura. Tenho tido resultados positivos, apesar de ainda precisar de muitos remédios algumas vezes por dia. Mais de um ano se passou, muita coisa mudou na minha vida, mas a vontade de “SERVIR AO PRÓXIMO” não mudou. Por isso, de todo o artigo que o convido à leitura – principalmente você colega aeronauta que sofre em silêncio por medo, vergonha, culpa, solidão e desesperança – faço minhas as palavras do Dr. Leonardo:

“O objetivo principal deste artigo é conscientizar pilotos e comissários a procurar ajuda especializada o quanto antes forem identificados os sintomas que dificultem o exercício profissional e que prejudiquem a qualidade de vida no trabalho e em casa, gerando conflitos familiares e sociais.” Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira

2 thoughts on “MINHA QUASE MORTE QUANDO A DEPRESSÃO ME DOMINOU”

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